Perdemos um bebé mas ganhámos algo maior!

Perdemos um bebé. Perdêmo-lo da forma mais injusta, não que exista uma forma justa para se perder um bebé… Não nos queremos lamentar, muito menos queremos que sintam pena, isso não faz parte da forma como somos ou como nos vemos. Este artigo é para vocês pais que passaram pelo mesmo e que precisam de esperança. Acreditem, vai ficar tudo bem… É também para vocês que nos querem conhecer melhor, para que comecem a dar mais forma à família real que somos.

Estávamos casados há pouco tempo e foi na nossa segunda lua de mel, nas Filipinas, que o teste deu positivo. Ficámos deitados na cama durante vários longos minutos a pensar, a refletir, a perceber que as nossas vidas iam mudar. O choque e a felicidade, tudo ao mesmo tempo. Voltámos a Lisboa e partilhámos com os avós. Queríamos que fosse menina mas trocaram-nos as voltas. Ficámos a saber que íamos ter o Francisco. O nosso primeiro bebé. Enquanto ele crescia na barriga, cresciam também os nossos corações que, agora, batiam em conjunto. Senti-o mexer. Que sentimento tão bom. O melhor que já tinha sentido em toda a minha vida. Qual dia de casamento, qual viagem, qual quê… Nunca nada se equiparou ao que senti naquela tarde, agarrada à barriga, à espera de mais.

Fomos fazer a ecografia morfológica. Íamos voltar a vê-lo. E vimos. Ficámos felizes. Tão felizes por vê-lo que nem quisemos ligar a nenhum dos sinais da médica. “Há uma parte do cérebro que não aparece. Temos de fazer uma Ressonância Magnética mas é garantido que o vosso bebé nunca venha a ser um bebé normal”. Não me lembro de muito mais. Estava grávida há 23 semanas. 5 meses. Fizemos a ressonância e, juntos, pedíamos que alguma coisa dissesse que era mentira. Mas não era. Dandy Walker. Grau muito elevado. Vários tumores no cérebro. Uma parte não se desenvolveu de todo. “Se não morrer até ao fim da gravidez nem nas próximas horas após o nascimento, será um vegetal para o resto da vida. Não é viável. Vamos marcar interrupção o mais depressa possível” disse-nos a médica da ressonância.

Chorei tanto quanto consegui. Já não o queria sentir mexer, muito menos sentir que o tinha de perder. Não fazia parte dos planos e nunca ninguém nos disse que isto podia acontecer. Não vale a pena entrar em pormenores acerca do processo de perda. Um dia, com calma, se quiserem, conto-vos tudo de coração aberto, como faço agora.

Sim, nós vimos o coração a deixar de bater. Ainda o vemos hoje, cravado em nós. Ainda sinto o mesmo que senti naquele dia mas com menos mágoa. Que sorte temos nós de ter uma estrela que olha por nós. Que sortudos fomos de o ter nas nossas vidas. Fizemos um retiro os dois. Eu e o Filipe refletimos durante dias a fio acerca do que nos tinha acontecido e de como seriam as nossas vidas dali para a frente. Tentámos, ao início, perceber o motivo de ser connosco. Percebemos depois que é a vida e que faz parte. Tivemos azar, como nos disseram as 4 médicas que nos acompanharam. E foi naquele azar que reunimos as nossas forças para ter a nossa sorte. A maior de todas.

Deixámos que o destino escolhesse a altura de voltarmos a passar pela mesma experiência de voltar a ter um bebé na barriga e, destino ou não, ao fim de dois meses sentimos uma nova vida a gerar-se. O Guilherme. O perfeito Guilherme. Arrumámos as coisas no sítio. Fechámos o capítulo. Ainda hoje olhamos para o céu e procuramos a estrela mais brilhante. Agradecemos a sua vida e as nossas. Seja ele ou não. Esteja onde estiver. Cresceu e viveu para nos tornar pessoas melhores. Somos outros. Somos gratos por ele. Somos gratos por nos sentirmos bem em poder partilhar convosco que depois de uma vida, vem a esperança e a tranquilidade no meio do caos. Que nada é por acaso e que, pode não fazer sentido no momento mas depois haverá uma razão.

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31 thoughts on “Perdemos um bebé mas ganhámos algo maior!

  1. Não consigo Que não me venham as lagrimas aos olhos a ler isto.. acompanhei a vossa luta e a vossa tristeza através da Odete, a minha querida tua Odete como carinhosamente lhe chamo.. sempre de coração apertado por não conseguir sequer começar a imaginar pelo que estavam a passar.. a olhar para A minha Bia e querer aperta-la ainda mais.. mas vocês são guerreiros e uma inspiração.. podiam ter tudo para dizer mal da vida, mas pelo contrário, vivem com uma força e alegria contagiante.
    Beijinhos.
    Catarina s.

    1. Obrigada por todo o carinho e pelas palavras. Saber que a nossa história poderá ajudar outras pessoas deixa o nosso coração mais tranquilo. Talvez seja esse o propósito. Um beijinho!

      1. É com muitas lágrimas nos olhos que escrevo este comentário passei exatamente pelo Mecânico o mesmo tempo de gravidez mas felizmente depois da ressonância consideraram que o nosso matheus não teria nada e que não passava de um erro clínico percebo a vossa dor e admiro a vossa forma de enfrentar tudo isto um grande beijinho e muita força

  2. Impossível ler isto sem ficar com os olhos a brilhar, sentir aquele nó nO estômago, Um arrepio que parece Não querer desaparecer!!!
    Obrigada por partilharem Esta hostória! A vida Por vezes é muito injusta, mas quando algo de Errado acontece tento sempre acreditar que será por algo melhor ♥️

    1. Fomos percebendo ao longo do tempo que a vida é injusta sim. Fomos também aprendendo a viver com isso a tornar a injustiça em algo melhor para nós. Obrigada pela mensagem de apoio. Beijinhos!

    1. E quando somos mães sentimos tudo em dobro e em triplo. Tudo tem um sentido… que o nosso seja que a nossa história ajude outros pais a superar a perda. Um enorme beijinho e obrigada!

  3. Podia dizer tanta coisa, mas infel sei o que sentiate. Por alguma razão a vida nos encarregOu de passarmos por eSta expEriência, que tanto Tem de boa como de mÁ.
    O que sei É que sAimos mais fortes e ainda com mais amor.
    Vou sempre recOrdar a noticia mÁ com a boa e que eatavamos as três gRávidas. Isto só acontEce uma vez na vida ❤️ ADoro-vOs priminhOs e a ti também Francisco ✨

    1. Quando passamos por isto é ainda mais fácil de perceber de que forma os outros se sentem, sem tirar significado aos outros, claro! infelizmente, numa altura mais precoce, também passaste pelo mesmo e perda, é sempre perda… um grande beijinho e obrigada pelo carinho, apoio e suporte.

    1. Vim dar com o vosso blogue por sugestão de uma enfermeira que acompanha o meu marido no segundo transplante renal mal sucedido. Também somos um casal jovem com um bebé de dois MESES e, infelizmente, não é só isto que temos em comum. Também nós passámos pela perda de um bebé às 24 semanas de GESTAÇÃO: o TOBIAS.
      Demorámos muito a superar esta perda mas felizmente temos o Luca na nossa vida.
      Vamos continuar a ACOMPANHAR-vos com entusiasmo 😉

      http://diascaes.blogspot.com/2017/06/1-de-junho-de-2016.html?m=1

      1. Caramba! Emocionei-me a ler o vosso artigo. Senti cada palavra como fosse minha. Poderia ter sido eu a escrever esse texto, foi exatamente o que senti e como me senti. Esta partilha é um dos principais motivos de nos darmos a conhecer: nem sempre tudo é fácil, é uma dor que jamais esqueceremos, é um filho que será para sempre nosso contudo, no final, fica tudo bem. Fica a saudade e a curiosidade de como teria sido sermos pais daquele bebé.

        Quanto ao transplante, tem muito que se lhe diga e, se um dia tivermos oportunidade, falaremos convosco acerca disso. Ficamos felizes por nos seguirem, por nos terem encontrado e por podermos tornar-nos uma inspiração para outras pessoas. Um enorme beijinho no coração!

  4. Olá, ler a vossa história é rever-me na minha, descobrir as 13 semanas que aquele nosso filho não irá fazer companhia aos outros é tirar um pedaço de nós que nunca se recupera. Muita força para quem já passou e para quem irá passar. Beijinhos

    1. lamentamos que também tenham passado por isto. A dor vai e dá lugar à saudade e ao amor que nunca morre. esquecer? nunca se esquece… um enorme beijinho no coração e obrigada pela partilha!

  5. Sei tão bem do que falas. Passei pelo mesmo no ano passado. e só tive coragem para falar nisso quando já estava grávida da maria. como tinha já 42 anos achei que dificilmente iria engravidar novamente depois daquela perda, mas foi logo 2 meses depois que fiquei grávida novamente. hoje a maria tem quase seis meses, mas muitas vezes me lembro daquele bebé que tive dentro de mim e que nunca vingou. A natureza lá saberá o que faz. tudo a correr bem com o guilherme. felicidades

    1. Antes de mais queremos pedir desculpa pela resposta tão tardia. Temos dedicado tanto tempo às redes que, apesar de termos lido, acabámos por não responder. Depois apenas queria lamentar. Todas as perdas são dolorosas e todos os filhos, nascidos ou não, são nossos filhos. Com eles morre uma mãe, morrem as expetativas e morre todo o investimento emocional. Tudo dói mas depois acaba por atenuar. Nunca passa e continuo a duvidar que, daqui a 20 anos, não continue a chorar sempre que fale do Francisco mas o meu coração está mais tranquilo como acredito que o seu esteja também. Um enorme beijinho e isto será algo que nos irá unir sempre! Obrigada pela partilha.

  6. Como vos compreendo , também tive uma experiência idêntica, há cerca de 20 anos. Somos pais de dois jovens de 19 e 22 anos. A menina, entre os dois , ficou para trás. A viDa tem que continuar… Abraço a todas os pais que passaram ou ainda virão a passar por esta triste experiência. Força e coragem. A vida é mesmo assim. Abraço.

  7. Ola linda famila, CONHECI o Pipo atraves de uma amiga que temos em comum a (Su), nunca falamos muito mas eramos amigos No face e cOmo é normal ia vendo a novidades, qUando vi fotos do vosso casamento fiquei deslumbrada, e apartir dai ia prepositadamente ver o vosso estado ate que um dia vejo esta vossa triste noticia e na altura eu tinha passado pOr algo semelhante mas menos violento, e na altura decidi sem te conhecer Catarina escrever te pelo messenger para partilhar contigo Que o mesmo se tinha passado comigo (pensava eu) e quis te dar forca porque fizeram o mesmo comigo e ajudou me A superar aquela fase menos boa e agora ao ler isto tudo… chorei…porque nao imaginava que a tua gravidez Ja estivesse tao avancada e dei o meu exemplo como formA de consolo (que isso nunca é toTalmente possIvel) mas aFinal era bem diferente … Mas na altura fiz o que o meu coracao mandou e fiquei bem e acho que isso é que realmente importa é ajudar o proximo mesmo sendo so com palavras… beijinho grande a todos e continua cOm este excelente trabalho e tudo de bom ❤️

  8. Sei bem o que isso é. Nós tambem temos uma estreLinha no céu, o nosso filho LourenÇo, o filho do meio. O lourenÇo nasceu ha dois anos e nada previa o que iria acontecer, nasceu e nao tinha qualquer atividade cerebral. Foi Um bebe que nunca chorou, e nunca acordou, sobreviveu durante 13 dIas, fez exames e exames e nao conseguimos descobri o que tinha. Foi muito DiFicil mal, tambem porque tivemos que explicar à nossa filha de quase 5 anos oque o irmao que ela tanto queria. Hije temos um Bebe de 20 dias em casa que nos enche de alegria e mostra-nos todos os dias que valeu a pena voltar a engravidar apesar de toda a ansiedade e medo. A francisca esta cimplet apaixonada pelo irmao ! Ironia nisto tUdo, o lourenço nasceu no dia 26 de deze 2016 e o vasco nasceu dia 27 de de 2028!

    E assim cresCemos e somos fekizes!!!

    1. Antes de mais queremos pedir muitas desculpas por só estarmos a responder agora! Depois queremos partilhar o lamento da perda de um bebé. É sempre duro e difícil. Há sempre uma parte de nós que deixa de existir mas é incrível a força que acabamos por ter para dar a volta por cima. Muitas felicidades para a bebé e que sejam muito felizes. Certamente terá uma estrelinha a cuidar de todos vocês.

  9. Uma história tão idêntica a minha, mas eu tinha mais uma menina. Uma gravidez gemelar, nada prévia que as coisas teriam este desfecho. Felizmente conseguimos “salvar” a Inês, depois de duas tentativas de aborto, sim duas, a primeira não resultou, a “Mafalda” continuava cheia de vida e muito mexida.
    A Inês foi chamada de bebê batalha,e mostrou-me que vale sempre a pena acreditar.

    1. Cada um de nós tem uma história, a sua própria história. Lamentamos todo o processo que nunca é fácil e a perda da Mafalda. Certamente será mais uma estrelinha que cuidará de vocês, assim com o Francisco. Obrigada pela partilha <3 Um beijinho no coração.

  10. “Não fazia parte dos planos e nunca ninguém nos disse que isto podia ACONTECER.”
    É tão isto! Se todas as histórias de gravidez e maternidade partilhadas são perfeitas, como saber que podem não sê-lo.

    Sou obstetra e tremo sempre quando os pais decidem trazer filhos mais velhos às ecografias… Levem nos às emocionais, depois da morfológica de saberem que está tudo bem. Agora a notícia crua em directo, só mesmo quem não sabe que pode acontecer, quem nunca teve que a dar ou receber…

    (obrigada pela vossa enorme partilha. Que blog maravilhoso)

    1. É mesmo! Uma gravidez tem muito que se lhe diga, até ao final. É uma incógnita e nem imaginamos o que seria dar uma notícia dessas aos pais com os filhos mais velhos presentes. Acreditamos que, por não se falar muito, os pais nem tenham noção do que pode acontecer. Um beijinho e nós é que agradecemos!

  11. Meu deus , nao consEguia dizer melhor. Nos, iNfelizmente tambem perdemos um bebe as 25+5 e Apesar da dor ter sido enorme , Continuo a dar graças a deus pelo facto da cardiopatia ter sido descobErta. O Diagnostico foi tal e qual o vosso , “nao e viavel, apos nascer pode nao sobreviver”. De coraçao nas maOs , decidimos nao ser egoistas nem para nos , mas sobretudo para um ser inocente. Passado 9 Meses a questior “porque a nos” fomos de Novo abenÇoados e hoje temos o Nosso bebe com quase 4 meses. 🙏🏼❤️

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