Ser pai e doente renal

O Manuel nasceu e com ele nasceu um pai de dois. Se do Guilherme tudo aconteceu de uma forma muito rápida, do Manuel sinto que as rotinas de pai e filhos é menos pesada do que da primeiras vez. 

Relembro que iniciei os tratamentos dez dias antes do Gui nascer e se foi um abanão positivo para a vida, foi também um choque de realidade. Nessa altura existia ainda o medo da hereditariedade: Será que um dia os meus filhos poderão vir a passar pelo mesmo processo que eu e a necessitar de tratamentos de hemodiálise?

Sabia que, no meu caso, a doença não tinha sido hereditária. Talvez já tenha nascido comigo apesar de se ter manifestado apenas anos mais tarde… o papel do médico assistente, neste caso, foi fundamental. Foi menos um peso que tive de carregar já que, no meu caso em específico, é algo que não passa de pais para filhos. 

Do Guilherme tudo foi um turbilhão de emoções: queria estar mais presente mas tinha de me adaptar a toda uma nova realidade. Foi física e mentalmente mais exigente. A Catarina passava as noites sozinha com um bebé recém nascido quando tudo era ainda uma novidade para ambos. 

Entretanto nasceu o Manuel… e se poderia ser mais complicada a adaptação por já ter o Guilherme e continuar a fazer os tratamentos na verdade tudo é muito mais simples e leve… Tenho cimentado em mim todo o processo dos tratamentos. Fazem parte da minha rotina, do meu dia a dia e tudo está arrumado. Isto faz com que esteja mais disponível para ser pai e para usufruir dos momentos que acabei por perder na primeira vez. Têm sido momentos incríveis e se já ia para a diálise com um ânimo diferente, agora tenho três grandes motivos para me levantar cedo todos os dias e querer voltar sempre bem. Por mim, pela Catarina e pelos dois miúdos mais incríveis que poderia ter.

O Gui e os porquê?

Se há coisas que sempre preferimos não esconder do Guilherme foi a minha condição e a necessidade dos tratamentos de hemodiálise. Sempre lhe explicámos que “o pai vai para a diálise” mesmo que ele não soubesse o que é que isso realmente significa.
Entretanto o Guilherme cresceu e com ele a necessidade de questionar o que o rodeia: “porque é que o pai tem de ir para a diálise?!”.
Se durante 3 anos uma frase bastava, aos três a vontade de compreender não se sustenta com o “porque precisa”. O coração aperta e tudo se complica um pouco mais… 
Ainda assim sempre decidimos que a verdade faria mais sentido que uma história de encantar. Esta é a nossa vida e a nossa rotina e não a podemos negar nem fingir que não existe. Por vezes quando saio dos tratamentos mostro-lhe os pensos a que ele chama de “dói dói” e explico-lhe de forma simplificada que é aquilo que me permite ir e voltar para perto dele. Na verdade ele pensa que a doença está no braço. Aos olhos de uma criança tudo é mais simples quando é palpável e visível. 
Ele sabe que preciso dos tratamentos para poder estar com ele e vê-lo crescer apesar de sabermos que, no fundo, é o tanto faz. Preferia que não tivesse de sair na mesma e mantivesse o tempo em casa. Mas ele não questiona e aceita. É uma realidade desafiante de se explicar a uma criança tão pequena mas com verdade e amor tudo fica mais leve. Para ele existe uma explicação, para mim ele é mais um motivo de querer voltar para casa.

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