De onde vimos? – Parte I

Não pensem que vimos de famílias abastadas e não se iludam pelas aparências. Somos exatamente iguais a vocês e crescemos como a maioria dos “comuns mortais”, como ouvimos no outro dia.

É hábito olhar-se para o que os outros têm, ignorando todo o percurso… É mais fácil pensar-se que as coisas chegam até nós porque se nasce em berços de ouro, do que se pensar que a vida é construída de esforços, de oportunidades e de, sobretudo, escolhas. Hoje partilhamos convosco de onde vimos, para vos mostrarmos melhor quem somos. Mostrarmo-vos que somos reais. De verdade!

Eu cresci num bairro social. Cresci a ver as desigualdades da sociedade. Cada porta de casa, sua etnia porque porta no prédio? Essa não existe! As portas de ferro que outrora separavam as casas dos patamares frios, foram arrancadas quando, famílias de 10 e 12 tentavam ocupar a casa do senhor que ali morrera, no próprio dia. O meu pai trabalha por conta própria, assim como a minha mãe. Ele, trabalha de sol a sol, sozinho, enquanto cria sofás de raiz com a melhor qualidade que já vi até hoje. Tem nele a pressão de fazer as coisas bem e de não desiludir as expetativas de todos os clientes para quem trabalha. Começou no ofício aos 11 anos de idade e agora trabalha nele das 6h da manhã às 20h15. Ainda hoje adormece no sofá, enquanto a minha mãe resmunga pela falta de companhia. Eles ainda lá moram, não que queiram ou realmente precisem, mas porque aquele é o sítio onde criaram as duas filhas, agora adultas. Nunca vi a minha mãe ou o meu pai ficarem em casa doentes. Nunca faltaram um dia ao trabalho e nunca alargaram as suas horas de refeição para algo que não fosse mesmo urgente ou importante.

Eu estudei em escolas públicas e tinha mesada que tinha de esticar até ao fim do mês. Se pedisse dinheiro emprestado aos meus pais, no mês seguinte era feita a dedução. Aprendi a gerir as minhas contas, as minhas coisas. Quando fui para a faculdade estudar Marketing e Publicidade, apesar dos meus pais a terem pago, justo seria arranjar eu o meu próprio emprego, para as saídas com as minhas amigas. Fui trabalhar para um call center. Com o tempo esse mesmo call center evoluiu e eu evolui com ele. Batalhei por 6 anos e, no fim, tornei-me team leader por mais 4.

O meu ordenado não foi sempre o mesmo e escusado será falar acerca desse tema. Deu para juntar algum dinheiro e para fazermos alguns planos não muito ambiciosos. Houve meses que tivemos de esticá-lo, muito. Chegámos a ter de pedir ajuda aos pais. O início de vida nem sempre é fácil e somos gratos por termos connosco a melhor família que poderia pedir. Conseguimos comprar uma casa porque tivemos sorte no contrato que fizemos. Podia ter dado errado mas acreditem, há 4 anos atrás o rodopio da venda de casas não era o que é hoje e, foi graças a isso que a conseguimos vender, agora, a um valor acima daquele que a compramos. Foi esta venda inesperada que acabou por ajudar-nos a dar o pontapé de saída para o que é, agora, o all aboard. O empurrão económico para conseguirmos viajar e seguir os nossos sonhos, passinho a passinho. Aprendemos com o que a vida nos deu e aproveitamos as oportunidades que foram criadas. Não somos meninos mimados apesar de nunca nos ter faltado nada. Sabemos fazer poupanças, sabemos valorizar o que temos e percebemos que cada um é responsável pelo rumo que quer dar à sua vida. Deixo a compra do tuk tuk para o segundo capítulo, o do Filipe. 

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