Nutrição – Entrevista Dr. Vitor Martins

A minha experiência com nutrição… e o bom conselho do Dr. Vitor Martins 

Nutrição é um dos pontos principais para a vida de um doente renal. É através de uma dieta rica e equilibrada que temos mais energia para a rotina diária, com maior vitalidade, e prevenimos a diminuição da nossa saúde. Uma das primeiras coisas que aprendi quando iniciei a diálise foi que é essencial evitar vários compostos, tais como, fósforo e potássio… e a lista de alimentos que os contêm é extensa.  

Então, que comece o desafio! 

Quando percebi que a minha dieta teria de mudar, pensei que seria uma grande mudança, não só para mim, mas para toda a família. Com bons concelhos médicos, organização, e amor conseguimos que houvesse comida saudável para todos. 

Todos os dias tenho de considerar diversas questões: O que posso comer, sabendo que o potássio está presente em muitas frutas e vegetais? Como posso gerir as Proteínas? Que ingredientes devo controlar? Que dieta mais apropriada seguir? Como posso educar o meu corpo e mente a ingerir menos líquidos? 

Como é sempre útil relembrar as respostas, pedi ao Dr. Vitor Martins, responsável de nutrição na @diaverum_portugal, para me ajudar a clarificar algumas destas perguntas, que acredito podermos ter em comum. Vamos aprender com quem sabe, e não se esqueçam de complementar a informação para o vosso caso especifico com o vosso nutricionista. 

Filipe: Quais são as grandes mudanças na nossa dieta diária quando sabemos que sofremos de doença renal crônica (DRC)? 

Dr. Vitor Martins: Depende do quão avançada está a DRC e de como está o funcionamento dos rins. 

Nos estados iniciais da DRC, é importante intervir nutricionalmente em problemas graves como, obesidade, diabetes, dislipidemia, se tais existirem. Nesta altura, devem-se aplicar recomendações gerais para uma dieta saudável, como comer 2 a 5 porções de fruta fresca e vegetais por dia, controlar a quantidade total diária de calorias ingeridas, evitar alimentos com “calorias vazias”, como doces, refrigerantes, snacks fritos, fast food, optando, quando possível, por preparar as próprias refeições em vez que comer alimentos processados. É também importante “respeitar e tratar bem” os alimentos, ou seja: evitar cozinha-los em demasia, evitar fritar, e adicionar o mínimo de sal possível para que os sabores naturais se notem são algumas recomendações dietéticas.  À medida que a DRC progride, pode ter a necessidade de adaptar e individualizar a sua dieta, o que tem de ser definido entre o doente, o nefrologista e o seu nutricionista/dietista, para ajudar os rins a lidar com a diminuição da função e, se possível, retardar o progresso da doença. 
Nesta fase, as diretrizes nutricionais serão: ajustar o total diário de proteínas ingeridas às suas necessidades individuais (um pouco menos, se for necessário clinicamente), reduzir a ingestão de sal, e controlar a ingestão de potássio e fosforo.  
Garantir que come todos os dias a quantidade adequada de calorias é também importante, pois como o apetite normalmente diminui nesta fase, existe um risco elevado de desnutrição. Vai evitar também a degradação muscular e das proteínas, pela qual aumenta a produção de ureia. 
Contudo, quando a função dos rins diminui consideravelmente e a terapia de substituição é necessária, como a hemodiálise, estas recomendações mudam. Na hemodiálise a recomendação é de aumentar a ingestão de proteína. 

Filipe: Podemos comer qualquer tipo de alimento em quantidades controladas, ou existe algum ingrediente proibido (refiro-me ao meu caso particular pois não sofre de diabetes nem de qualquer outra doença)? 

Dr. Vitor Martins:  Gerir a dieta é como gerir um orçamento. Por exemplo, para o potássio haverá uma necessidade diária estimada. Se todos os alimentos que ingere num dia lhe dão muito mais potássio do que a quantidade que precisa e da que é possível remover pelo tratamento de hemodiálise, o corpo irá acumular e ficará em risco de hipercalemia o que, em casos mais severos leva a paragem cardíaca e à morte. Quando começa a hemodiálise, o seu nutricionista/dietista estima a necessidade nutricional que precisa e elabora um plano alimentar tendo em conta os seus hábitos e preferencias alimentares. Este plano alimentar tem as quantidades e as porções de alimentos que ajudam a gerir o “orçamento alimentar” de acordo com o que pretende e sem qualquer risco.  Claro que existem alimentos que devem ser evitados por possuírem alto conteúdo mineral por porção, tais como, abacate, banana ou melão. 
Contudo, se preferir comer algum em particular, pode discutir com o seu nutricionista/dietista e ele poderá estimar uma porção desse alimento com uma quantidade segura de potássio e/ou fosfato. 
Mesmo assim, esteja ciente de que em alguns casos a porção de alimento pode ser muito reduzida. No abacate é cerca de 1/5 do um abacate médio (perto de 50g)… Em alguns alimentos, como as batatas, pode reduzir a quantidade de potássio cortando-as em pedaços, de tamanho médio ou pequeno, e coloca-los em imersão uma ou duas vezes durante algumas horas, ou ferve-los antes de os cozinhar.  

Filipe: Que tipo de dietas devemos evitar? Uma dieta de baixas calorias é aceitável para um doente como eu, que faz diálise? 

Dr. Vitor Martins: Doentes em hemodiálise devem evitar dietas, ou padrões alimentares, com alto teor em sal, potássio, fosfato e fluidos. Cerca de metade dos pacientes em hemodiálise está em risco de desnutrição proteica e energética. Recomendamos uma dieta normal ou hipercalórica. É importante fornecer a quantidade certa de energia ao corpo, para realizar as suas funções vitais, para produzir proteína, para manter ou renovar células ou tecidos, e até para manter reservas adiposas, pois não sabe quando irá precisar delas. O défice de energia numa dieta de baixas calorias terá de ser analisado e definido entre, doente, nefrologista e nutricionista/dietista tendo em vista os objetivos, ganhos e riscos, pois uma grande redução de energia ingerida pode afetar as funções corporais, como a capacidade de gerir corretamente o metabolismo das proteínas. Despender energia em atividades diárias (caminhar, subir escadas,…) e em atividades físicas poderá ajudar a alcançar os objetivos, mas por favor consulte o seu nefrologista em qual será a melhor abordagem à atividade física para o seu estado clinico. 

Filipe: Que dieta sugere para a minha família? Tendo em conta as minhas necessidades especificas, a ideia é ter uma dieta saudável para todos. 

Dr. Vitor Martins: Os benefícios da Dieta Mediterrânica já foram provados e é o padrão alimentar recomendado para toda a população. Com o seu plano alimentar individual pode ajustar alguns alimentos e porções para assim poder usufruir das refeições em família. 

Filipe: A diálise tira-nos energia. Existem alguns ingredientes que equilibrem esta falta de energia? Quais? Sugere alguma receita? 

Dr. Vitor Martins: O processo de hemodiálise em si aumenta a necessidade de energia e de proteína. É estimado, dependendo dos estudos, que mais de 330kcal e 7g de proteína/dia devem ser compensados após hemodiálise. Uma boa forma de compensar este aumento é fazer uma refeição extra no dia da hemodiálise, se possível durante o tratamento: 1 ou 2 fatias de pão com fiambre de peru, queijo fresco ou geleia e uma caneca de chá, café ou sumo (baixo em potássio), deverá preencher estas necessidades e compensar o impacto do tratamento de hemodiálise. 

Filipe: Que conselho me pode dar para educar o meu corpo e mente a ingerir menos líquidos? 

Dr. Vitor Martins: Temos de ser os nossos próprios treinadores e tratar claramente a situação. Não existe outra maneira se não controlar a sede e tudo o que a faz aumentar. Quando se tem sede é muito difícil controlar o desejo de beber, alguns pacientes referem que é ainda mais complicado de controlar do que a fome. Então tem de treinar sozinho, adaptando gradualmente o paladar, reduzindo dia-a-dia a quantidade de sal adicionado (ao mínimo ou mesmo nenhuma), aumentar o sabor dos alimentos através de especiarias e ervas, controlar outros fatores tais como, temperatura corporal (evitar a exposição ao calor), ares condicionados, ter uma boa higiene oral, etc. O mesmo se aplica aos fluidos que consome durante o dia, mantendo um registo diário usando pequenas garrafas ou copos e ir reduzindo a ingestão gradualmente. Manter o foco e reduzir o aumento de peso interdialítico ao recomendado (menos 4% do seu “peso seco”) e tudo o que foi exposto anteriormente, deverá mantê-lo no caminho certo. É um esforço contínuo. 

Filipe: Como é que a dieta atua de uma maneira preventiva para todos aqueles que não têm DRC? 

Dr. Vitor Martins: Somos o que comemos, e a dieta é como combustível para o corpo, se o combustível é bom e adequado às necessidades, o motor do carro trabalha em melhores condições e durante mais tempo.  Uma boa nutrição que satisfaça necessidades macro e micronutrientes, juntamente com a quantidade certa de calorias, irá diminuir os riscos de várias doenças, nomeadamente as “civilizacionais”, como a obesidade e a diabetes. Como já referi, recomendam-se alguns padrões saudáveis, como a Dieta Mediterrânica que orienta a escolha de alimentos, caso não tenha nenhuma condição particular de saúde. Pode sempre contar com a orientação dos profissionais de saúde que lhe darão opções tendo em conta a sua cultura, preferencias e hábitos alimentares. 

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